I. TEXTO, CÂNON E LITERATURA E A ORTODOXIA CRISTÃ.
A matéria Introdução e Análise da Bíblia I tem como objetivo dar ao estudante um conhecimento básico relativo aos três principais campos de estudos introdutórios da Bíblia, que são os seguintes: Texto, Cânon e Literatura.
É bom que comecemos definindo o que significam estas três palavras, no contexto de nossa disciplina:
Texto. Esta palavra, não a usamos, por exemplo, no sentido em que é empregada, quando alguém pergunta ao pastor, em que texto ele baseará a sua mensagem no próximo domingo. Aqui, a palavra texto se refere própria e respectivamente ao Antigo e Novo Testamentos, como os temos hoje, depois de um longo processo de transmissão e conservação dos mesmos em cópias e versões.
A palavra cânon se refere à coleção dos livros que constituem o Antigo e Novo Testamentos, em distinção de outros livros, que também pertencem à literatura hebraica antiga, ou à literatura cristã produzida no mesmo período, ou próximo ao período em que foram escritos os livros do Novo Testamento, e contudo não lhe pertencem.
A palavra literatura, se refere ao processo de composição, propriamente, dos livros que integram o Antigo e Novo Testamentos.
A importância da matéria é comparável ao fundamento de um edifício. Não ignoramos que a confiança de que a Bíblia é a Palavra de Deus começa através do testemunho subjetivo e interno do Espírito Santo. Porém, o estudo desta disciplina, além de prover conhecimento necessário ao estudante e intérprete da Bíblia, fortalecerá a confiança acima referida, principalmente, em face aos muitos ataques de que a Bíblia tem sido alvo, desde os centros acadêmicos, e até da mídia de massa. Uma pergunta inteligente, porém não necessariamente incrédula, é a seguinte: O que lemos hoje no Evangelho de João é fielmente o que ele escreveu? O estudo do Texto lida com esta questão. Se alguém pergunta: Por que o livro de Daniel faz parte do Antigo Testamento, e os livros de Macabeus estão fora? O estudo do Cânon trata desta questão. E, quando alguém questiona: Será, de fato, Moisés o autor do Pentateuco? É o estudo da Literatura que aborda este assunto. O estudo do Texto, Cânon e Literatura estão relacionados à credibilidade e autoridade das Escrituras Sagradas.
Devemos ainda acrescentar que, estes três assuntos são de grande importância para a tarefa de interpretação da Bíblia.
Por tudo isto, cremos que todos os que têm sido chamados ao ministério da pregação e ensino da Palavra de Deus hoje, jamais deveriam ignorar esta matéria.
Nosso Conceito da Bíblia: A Bíblia é a Palavra (escrita) de Deus. De fato, Deus revela seus atributos na Criação e na Providência. Porém, é nas Sagradas Escrituras que Deus se revela redentivamente ao homem. A revelação redentiva foi um processo que começou imediatamente após a queda do homem (Gn 3), e se concluiu na primeira vinda de Cristo Jesus, o Verbo, ou Palavra de Deus (Hb 1.1-2).
A Escritura Sagrada é a infalível (1 Pe 1.19-21), e suficiente (2 Tm 3.14-17) Palavra de Deus. Isto significa, primeiramente, que a Escritura Sagrada é infalivelmente verdadeira em todos os seus registros. Não somente quando se refere ao ser, atributos e propósitos de Deus. Mas, igualmente em seus registros históricos e geográficos (Como poderíamos confiar em revelações não passíveis de verificação, como a consciência do espírito humano, após a morte física, se a mesma fonte desta revelação errasse em seus registros verificáveis, com os históricos?). E, porque é absolutamente verdadeira, é também a nossa única regra de fé e prática. Em segundo lugar, suficiente significa que a Escritura Sagrada contém absolutamente todo o conhecimento necessário à salvação (no sentido pleno da palavra, incluindo a santificação) do homem.
Enquanto a revelação natural (por meio da Criação e Providência) é propositalmente ignorada, a revelação escrita é alvo de dúvida, rejeição, e até de ataque. Isto não é novo, até a revelação proposicional (em palavras) pré-redentiva, e também pré-escrita se tornou alvo de dúvida, ataque e rejeição (Gn 3.1-6). Os legítimos profetas do Senhor constantemente foram alvos de hostilidades (1 Re 19.1-3). O Livro da Lei esteve perdido em Judá nos dias que antecederam a reforma do rei Josias (2 Cr 14). A própria conclusão do livro de Apocalipse faz uma séria advertência contra qualquer acréscimo, ou subtração em seu conteúdo (Ap 22.18-19).
No século XVI, a redescoberta da Palavra de Deus promoveu uma das mais importantes mudanças na história, a Reforma. Então, a Bíblia, que foi a causa de uma tão radical mudança, se tornou nos séculos seguintes, e principalmente, entre os séculos XVIII e XX, o alvo de fortes e constantes ataques, do racionalismo e o iluminismo, os quais exaltam a razão humana como a única fonte do conhecimento. A negação de um Deus pessoal, que age na natureza e na história, característica destes movimentos, motivou uma grande batalha contra a idéia da que a Bíblia é a Palavra de Deus. Entretanto, estes ataques não ficaram sem respostas. A ortodoxia cristã tem trabalhado com diligência igual à de seus opositores, e provido alternativas muito consistentes ao ceticismo da crítica bíblica radical, e ao liberalismo teológico (2 Co 10.4-5; 1 Pe 3.15).
Pastor Weber Lanz
II. OS LIVROS NA ANTIGUIDADE
O que vai ser exposto sobre a Crítica Textual, seu propósito, seu trabalho e suas ferramentas, fará mais sentido se tivermos em mente o modo como os livros eram produzidos antigamente. Por isso, dedicaremos as próximas linhas a algumas informações básicas sobre o modo como os livros antigos eram escritos e, então, copiados.
Os primitivos livros eram manuscritos (escritos à mão), até à invenção da Máquina Impressora por Gutemberg no século XV. Até esta invenção, o processo de produção de livros era extremamente trabalhoso, os materiais envolvidos nesse processo eram rústicos, e a escrita ainda não estava plenamente desenvolvida. Materiais usados para a aplicação da escrita:
1. Peças de barro (grafadas com estilete e levadas ao forno).
2. Pranchas de madeira.
3. Pedras lavradas (grafadas com cinzel).
4. Papiro: manufaturado de origem vegetal. O papiro era conhecido no Egito desde 3000 AC, mas na Grécia, apareceu somente por volta do V século AC. O tamanho das páginas era de aproximadamente 18 x 25 cm., que podiam ser juntadas em rolos (que podiam ter entre 10 e 45 m de comprimento aproximadamente), ou em códices (coleções). Nestes, as páginas eram juntadas em um dos seus lados somente. Eram como os livros modernos, e, por isso, proporcionavam mais conforto para a leitura). A pior característica do papiro era sua pouca durabilidade.
5. Peles de animais:
Pergaminho: Desce o séc. XVIII AC., o couro de animais era usado para receber escrita (destes se faziam também rolos e códices). O pergaminho em pele de carneiro ou de ovelha (mais delicado que outros tipos de peles), começou a ser usado no IV séc. AC, aproximadamente. Foi somente neste século que o pergaminho começou a substituir o papiro, que era mais barato. O papiro ainda esteve em uso até o VII século DC. A grande vantagem do pergaminho, em relação ao papiro, era a sua durabilidade. A escrita era produzida com penas metálicas, ou de cana. As tintas eram coloridas, de origem vegetal, mas também podiam ser de pós de origem metálica, ou do fumo das lâmpadas de azeite.
Palimpsesto: Eram pergaminhos que depois de terem recebido escrita, eram raspados e reutilizados para um novo escrito. (Prática usual na Idade Média).
7. Diversos: alguns outros materiais também eram objetos de escrita, como metais, pedras preciosas, louças e tecidos.
8. Papel: Foi inventado pelos chineses no I séc. AD. Por volta do séc. XII começou a substituir o pergaminho.
A escrita propriamente, ou seja, o modo de escrever é também um aspecto da prática antiga de produzir livros que merece uma atenção especial. Três tipos de escrita foram utilizados:
1. Uncial: Usada nas obras literárias e nos documentos oficiais. As letras eram grandes e separadas entre si; porém, sem separação entre palavras. Os manuscritos eram belos, contudo, dispendiosos.
2. Cursiva: Com letras pequenas e ligadas, usando também contrações (a=a = à; de + a = da; me + os = mos). Eram utilizados para cartas pessoais, transações comerciais, e outros escritos comuns. Este tipo de escrita barateava o manuscrito.
3. Minúscula: Foi o resultado de uma reforma da escrita cursiva (entre os séculos IX e XI). Caracterizava-se pela separação entre as palavras, acentuação, pontuação e abreviação. Era utilizada para os escritos literários em geral.
Há outros aspectos dos livros na antiguidade, que também devem ser destacados:
1. Tamanhos variados: rolos de peles de animais, ou de papiro podiam ter alguns metros de extensão: 7, 10, 40 metros, ou mais. Porém, os rolos, quanto maiores, ultrapassando os 10 metros, eram impróprios, ou desajeitados, tanto para a escrita, quanto para a leitura.
2. Diagramação: O texto podia estar exposto em páginas que podiam conter uma, duas, ou mais colunas.
3. As páginas também podiam ser ornamentadas.
4. Os textos podiam conter ilustração.
5. Notas de orientação ao leitor, eram freqüentemente inseridas nas páginas.
III. A CRÍTICA TEXTUAL
A Crítica Textual é também conhecida como Baixa Crítica. Esta expressão não se constitui num juízo de valor a respeito desta ciência, nem tão pouco do objeto de estudo da mesma; mas, se refere ao seu aspecto primário, ou fundamental para a Crítica Bíblica. Isto significa que qualquer estudo sobre uma obra literária antiga, depende em primeiro lugar do estabelecimento seguro do texto.
A palavra "crítica" vem do idioma grego, e significa: julgamento, teste, avaliação. A Crítica Textual é a avaliação do estado de um texto. Crítica Textual da Bíblia é, portanto, a avaliação do estado do texto da Bíblia hoje, passados alguns milênios.
O objetivo da Crítica Textual é reconstituir ou atestar a fidelidade textual aos seus autógrafos.
A Crítica Textual não pergunta se a Bíblia é ou não é a Palavra de Deus. Ela somente pergunta se o texto bíblico, como o temos hoje, é o que era quando foi originalmente composto. Ou, repetindo a pergunta já feita anteriormente: O que lemos hoje no evangelho de João é fielmente o que ele escreveu? Portanto, a intenção da Crítica Textual é atestar ou, quando for necessário, restaurar a fidelidade textual. A pergunta que move o crítico textual é: O que o autor (realmente) escreveu?
Quando dizemos que temos os originais do Antigo e Novo Testamentos, estamos dizendo que temos milhares de cópias antigas do AT e do NT, nas línguas em que foram originalmente escritos. Pois, de fato, não temos o manuscrito em que, por exemplo, o apóstolo Paulo compôs a sua carta aos Romanos. Este manuscrito não é tecnicamente chamado de original, mas de autógrafo. Não temos, entretanto, nenhum autógrafo de qualquer livro da Bíblia.
A Crítica Textual não deve ser considerada uma adversária da Bíblia. Ao contrário, é uma aliada, e, sem dúvida, uma providência divina. Contudo, como qualquer ciência, ou como qualquer ferramenta, deve ser usada com todo o critério. Se ela for mal utilizada, ela tanto pode permitir que um erro de um copista permaneça no texto, como pode tirar do texto uma parte do autógrafo.
Como já foi dito, não temos os autógrafos dos livros da Bíblia, mas temos um extraordinário e, de longe, o maior e melhor testemunho manuscritológico, comparado a qualquer outra obra antiga.
Porém, este tão vasto testemunho manuscritológico, ou seja, esta imensa quantidade de cópias da Bíblia, inteiras ou parciais, nas línguas originais (Hebraico e Grego), ou em várias versões, apresenta um problema: existem registros (tecnicamente chamados de leituras) divergentes. Estas divergências são observadas mediante a comparação (tecnicamente chamada de colação) de vários manuscritos. As divergências encontradas são chamadas de variantes.
Se por um lado o grande número de cópias exibe um grande número de variantes, por outro lado, também o trabalho de reconstituição textual se torna ampla e seguramente realizável.
É importante ressaltar que quando a ortodoxia cristã afirma a plena inspiração divina das Escrituras Sagradas e, consequentemente, a sua infalibilidade, está se referindo aos autógrafos. O trabalho dos copistas e dos tradutores não foi infalível, posto que não houve, para eles, uma ação especial do Espírito Santo, que os resguardasse da possibilidade de errar, como houve, de fato, para os autores dos livros da Bíblia. Portanto, é evidente que a Crítica Textual, quando bem usada, é uma ferramenta muito útil à Igreja. A Critica Textual e uma ferramenta ou ciência útil, que, porém, também tem suas limitações.
O trabalho de Crítica Textual
Passaremos agora a descrever, em linhas gerais, o trabalho de Crítica Textual. Eis algumas características importantes:
1. É um trabalho de longo prazo. O trabalho de crítica textual que se faz hoje, não pode ser precipitado.
2. E um trabalho que se utiliza do trabalho de crítica textual feito num passado bem remoto.
3. É também um trabalho muito detalhista.
A Crítica Textual começa com a catalogação de manuscritos. Os manuscritos que são encontrados, mediante procura ou casualmente, são catalogados; isto é, são classificados quanto ao seu tipo, e, então, recebem um código de identificação.
A datação dos manuscritos é outro importante trabalho da crítica textual; pois, em princípio, o documento mais antigo é mais valioso para a crítica textual. Esta regra, entretanto, não é aplicável quando, comparando-se dois manuscritos, o mais antigo é uma cópia de um outro manuscrito, mais novo do que o manuscrito do qual o segundo foi copiado. Por exemplo: um mss (manuscrito) do século VIII está sendo comparado com outro mss do século X. O mss do século X pode ser considerado melhor, quanto ao critério de antiguidade, que o do século VIII, se o mss do século X for uma cópia de um outro do século IV, e o do século VIII, foi copiado de um mss do século VII. Neste caso, o critério da antiguidade não foi abandonado, ao contrário, ele foi valorizado na "linhagem" dos dois documentos comparados.
MSS do Século VIII
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MSS do Século X
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Cópia de um MSS do séc. VII
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Cópia de um MSS do séc. IV
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Melhor, porque é cópia de um MSS mais antigo
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Quanto mais antigo melhor, porque mais próximo da época do autor ou do evento narrado.
(Quadro adicionado à apostila original por Éber César)
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A datação pode ser feita pelos seguintes meios:
1. As datas podem ser encontradas inscritas nos próprios manuscritos; porém, elas eram raras até o séc. XI, e obscuras até o séc. XIII.
2. Paleografia, isto é, o estudo da escrita na antiguidade.
3. Método radioativo
A colação de manuscritos é a comparação entre vários mss com o objetivo de se reconstituir a fidelidade ao que o autor escreveu, em uma seção específica e comum aos mss comparados.
IV. O TRABALHO DA CORREÇÃO TEXTUAL
A correção textual propriamente consiste em duas distintas e consecutivas tarefas a serem realizadas.
A primeira é a identificação das possíveis causas de variantes, que podem ser classificados em duas:
1. Erros involuntários:
a) Troca de letras parecidas graficamente.
b) Troca de palavras graficamente parecidas.
c) Troca de fonemas parecidos (pala, bala, fala, vala, sala).
d) Transposição de letras (em palavras), ou de palavras (em frases).
e) Omissão de letras, sílabas ou palavras.
f) Duplicação de letras.
g) Divisão de uma palavra.
h) Fusão de duas palavras.
i) Saltar uma palavra; uma, mais linhas.
j) Introdução no texto de alguma nota marginal.
2. Ações propositais:
Harmonização textual.
Inserção de notas marginais, tradições, explicações e doxologias.
Correção ortográfica, gramatical e estilística.
Correção histórica e geográfica.
Correção exegética.
Correção doutrinária.
A segunda tarefa do trabalho de correção textual é a aplicação dos princípios de correção textual, que também se classificam em dois grupos diferentes:
1. Princípio das evidências externas:
A variante mais antiga deve ser preferida, por sua proximidade do autógrafo. Pois quanto mais distante do autógrafo, são maiores a chances de refletir acúmulo de erros.
A variante apoiada por tradições (famílias) textuais diferentes deve ser preferida.
Os mss devem ser mais valorizados por sua qualidade, que por quantidade.
Os mss nas línguas originais têm a preferência em relação às suas versões.
Os mss bíblicos têm a preferência em relação às citações bíblicas que há em obras antigas.
2. Princípio das evidências internas:
A variante mais difícil deve ser preferida, por causa da tendência do escriba de querer tornar uma passagem difícil mais compreensível.
A variante mais breve deve ser preferida, por causa da tendência natural de fazer acréscimos.
A variante em desacordo com suas passagens paralelas (no texto bíblico) deve ser preferida, por causa da tendência de harmonizar passagens paralelas que tenham alguma aparente divergência.
A variante que está de acordo com seu contexto imediato deve ser preferida, pois deve haver coerência, no que o próprio autor escreveu.
Estes princípios de correção textual são suficientes para nos dar uma idéia de como é exigente e meticuloso o trabalho de um crítico textual. Este trabalho exige paciência, critério e prudência. Os princípios das evidências internas são os que apresentam os maiores perigos para o crítico textual; pois, algumas vezes, estes princípios, podem se colocar em contradição. Além disto, estas são regras que permitem exceções.
É bom que se ressalte que nem sempre o trabalho de crítica textual tem resultado, necessariamente, em correção textual. Muitas vezes o resultado tem sido a confirmação de um geral bom estado de preservação do Texto, embora este não tenha atravessado os séculos, de forma incorrupta em qualquer manuscrito. Não nos esqueçamos, a doutrina da infalibilidade da Bíblia se refere aos autógrafos. Mas, Deus tem soberana e providencialmente preservado o Texto da Bíblia, apesar das tentativas corruptoras dos adversários e das falhas não propositais de bem intencionados copistas e tradutores. Contudo, a diligência de outros também tem sido importante instrumentação divina para a preservação do Texto.
V. A CRÍTICA TEXTUAL APLICADA À BÍBLIA
Pode a Crítica Textual ser aplicada à Bíblia, ou seja, à Palavra de Deus? Pelo que temos visto a respeito do que é a Crítica Textual, respondemos, não simplesmente, que sim; mas, que devemos aplicá-la, pois:
1. O conceito de infalibilidade é pertinente aos autógrafos somente. E, claro, às suas cópias e versões, à medida que são fiéis aos autógrafos.
2. Não há, entretanto, autógrafos disponíveis.
3. Porém, nenhuma outra obra antiga foi tão copiada como a Bíblia. Portanto, nenhuma obra antiga se compara à Bíblia em sua possibilidade de ser atestada e/ou restaurada a sua fidelidade aos autógrafos.
4. Nenhum receio é justificado:
4.1. A fidelidade textual é uma exigência da própria Escritura Sagrada (Ap 22.18-19)
4.2. A providência divina tem preservado o Texto Bíblico:
Porém, não por meio de qualquer cópia (nem versão) infalível.
Conduzindo circunstâncias e acontecimentos que contribuíram direta ou indiretamente para a conservação e restauração do texto, apesar de outras circunstâncias e acontecimentos que promoviam corrupção do texto.
Usando a própria crítica textual, desde a sua forma mais incipiente até à sua forma mais elaborada.
5. Muitas vezes é comentada com grande alarde, até por escritores conservadores, a grande quantidade de variantes encontradas nos manuscritos remanescentes do Antigo e do Novo Testamentos. Entretanto, deve ser lembrado que a grande maioria destas variantes constitui-se de falhas involuntárias como troca e omissão de letras, ou de palavras; inclusão, ou exclusão da conjunção "e", e do artigo definido "a", "o".
Temos hoje um texto bíblico fiel aos seus autógrafos? Antes de tudo, é importante ressaltar que, embora nenhuma cópia manuscrita fosse isenta de erros involuntários (até livros e revistas impressas hoje também podem apresentar falhas), é óbvio que, por exemplo, quanto ao Novo Testamento, a igreja primitiva, depois de haver recebido os autógrafos, desfrutou por algum tempo de cópias mais próximas da exatidão.
Contudo, no decorrer dos anos as falhas foram aumentando; e também correções iam sendo feitas. Entretanto, apesar das diferentes qualidades de cópias, também podemos crer que a igreja sempre teve, no decorrer de sua história, um texto suficientemente preservado para receber os benefícios próprios da Escritura, ou seja, promover a salvação e santificação dos eleitos. Quanto à qualidade do atual texto das Escrituras, podemos e devemos adiantar esta conclusão dizendo, em bom som, que sim, temos um excelente texto das Escrituras Sagradas!
Embora a ciência da Crítica Textual não seja exata, no sentido matemático, costuma-se dizer, entre as próprias autoridades na Crítica Textual, que o texto bíblico que temos hoje é seguramente fiel aos seus autógrafos em cerca de 98-99 %. Isto significa que embora não devamos ser presunçosos ao ponto de afirmar que temos um texto absolutamente fiel aos autógrafos, podemos e devemos afirmar que temos um texto das Santas Escrituras muito próximo da fidelidade absoluta. Além disso, deve-se adiantar também que em nenhuma das pouquíssimas passagens em que há alguma dúvida sobre a fidelidade aos autógrafos, há qualquer ameaça aos ensinos básicos da fé Cristã.
O Texto Recebido (o texto do Novo Testamento grego que predominou, isto é, foi adotado por ser considerado a forma mais fiel aos autógrafos, desde o período da Reforma) e o Texto Criticado (o texto em que resultaram os esforços dos últimos dois séculos da Crítica Textual) têm algumas diferenças entre si, assim como também nenhum manuscrito é igual a outro. Porém, a doutrina que os Reformadores sustentaram, munidos do Texto Recebido não é em nada diferente de seus fiéis herdeiros hoje, munidos do Texto Criticado.
É bom que se diga ainda que, embora, a maioria dos estudiosos reformados prefiram o Texto Criticado, há outros, igualmente reformados, que preferem o Texto Recebido.
VI. O ESTUDO DO CÂNON
Cânon é uma palavra grega de origem hebraica, que significa: cana, vara, vara de medida, régua. No meio eclesiástico, verificamos um desenvolvimento no uso e no conceito desta palavra. A princípio, se referia a uma regra doutrinária, depois a uma lista de livros sagrados; e no quarto século, foi aplicada à própria Bíblia, como a regra divinamente inspirada, autorizada e infalível.
As questões relativas ao Cânon das Escrituras Sagradas envolvem duas grandes religiões e duas grandes vertentes do Cristianismo. Uma das divergências encontra-se entre o Cânon Judaico e o Cânon Cristão; e a outra, é a diferença entre o Cânon Católico
Romano e o Cânon Protestante. A diferença entre o Cânon Cristão e o Judaico tem uma fundamental razão teológica e histórica. O judaísmo, ao contrário do cristianismo, rejeita a Jesus como o Cristo prometido. Por isso, o Novo Testamento não é Escritura Sagrada para o judaísmo. Contudo, o Antigo Testamento do Cânon Protestante corresponde exatamente ao Cânon Judaico. A diferença entre o Cânon Protestante e o Católico Romano está no acréscimo dos livros chamados apócrifos encontrados no Cânon Católico Romano. Este acréscimo também tem uma causa histórica e outra teológica:
A Vulgata, seguindo a tradução latina que a antecedeu, manteve os livros anexados ao Antigo Testamento pela Septuaginta.
A autoridade dos Concílios: O Concílio de Trento (1546), em reação ao Protestantismo, reconheceu como canônicos os livros apócrifos.
A escrituração da Revelação Especial (Redentiva) pressupõe que o estabelecimento do Cânon era um propósito de Deus. Podemos apresentar três convincentes razões:
Esta forma escrita se tornaria (e efetivamente se tornou) o meio regular de acesso à Revelação Especial.
Era necessário preservar a Revelação Escrita.
Era necessário distinguir os escritos (livros) que compõem a Revelação Escrita, de outros escritos.
A própria palavra cânon transmite a idéia de uma medida padrão, portanto inalterável. Do Cânon, nada se extrai, nem a ele se acrescenta qualquer outro livro. Mas como foi que a Igreja recebeu o Cânon da Escrituras Sagradas constituído de 66 livros, 39 do Antigo Testamento, e 27 do Novo Testamento?
O catolicismo romano se apóia na autoridade da própria igreja, isto é, na autoridade de seus concílios. Porém, não existe uma "lista inspirada" dos livros canônicos (exceto para o Catolicismo Romano). O Protestantismo entende que não foi a igreja que estabeleceu ou definiu o Cânon; ao contrário, o Cânon , por sua própria natureza (divinamente inspirado) se impôs naturalmente à igreja. A igreja (tanto no período do Antigo, quanto no do Novo Testamento) reconheceu, não no sentido de decretar, mas no sentido de identificar, a divina autoridade dos livros que vieram a integrar o Cânon. Calvino respondeu com grande perícia à pergunta relativa ao Cânon:
… Como seremos persuadidos de que isso veio de Deus, sem recorrer a um decreto da Igreja? É exatamente o mesmo que fosse perguntado – Como aprendemos a distinguir a luz das trevas, o branco do preto, o doce do amargo? A Escritura ostenta em sua face evidência tão clara de sua verdade, quanto o preto e o branco fazem de sua cor, e o doce e o amargo fazem de seu paladar.
Embora o estudo do Cânon, hoje, não seja assunto tão "aquecido" quanto o estudo do Texto e da Literatura, não é menos importante para a Introdução e Análise da Bíblia; afinal, toda a matéria de fé e prática da Igreja é deduzida exclusivamente a este conjunto de literatura canônica.
Vulgata: versão latina das Escrituras feita por São Jerônimo (327-420) usada pela Igreja Católica e declarada autêntica pelo Concílio de Trento (realizado nesta cidade italiana, entre 1545-1563, em resposta à Reforma Protestante). (Nota acrescentada por Éber César).
Septuaginta ou Versão dos LXX: a mais antiga versão grega do Velho Testamento, feita em Alexandria, Egito, cerca do século III a.C, ou seja, no período Inter-testamentário. (Nota acrescentada por Éber César).
VII. A LITERATURA
Já temos procurado dar uma visão geral de dois dos três campos dos Estudos Introdutórios à Bíblia. Já falamos do Texto, e também do Cânon. Agora passaremos ao terceiro campo: a Literatura.
Crítica Literária
Anteriormente, mencionamos a diferença entre Baixa Crítica (Crítica Textual) e Alta Crítica (Crítica Literária ou Crítica Histórica).
A Crítica Textual trabalha na atestação e/ou restauração da fidelidade textual de uma literatura antiga ao seu autógrafo.
A Crítica Literária trabalha com a literatura propriamente, procurando identificar a autoria, data, estrutura, contexto, propósito, leitor alvo e fontes.
A palavra crítica pode ser usada em dois sentidos diferentes: um extremamente negativo e destrutivo; e outro positivo e construtivo. Walter C. Kaiser Jr., com base no Oxford English Dictionary, assim se refere a estes dois sentidos: …o primeiro é 'a ação de criticar, ou fazer julgamento a respeito de alguma coisa;
especialmente fazer julgamento desfavorável, procurar de erro, censurar.' O segundo é 'A arte de estimar as qualidades e caráter de uma literatura ou um trabalho artístico; esta é a função ou trabalho de um crítico.'
Sobre a Crítica Literária da Bíblia, com muita propriedade, Walter Kaiser Jr. acrescenta: "Infelizmente há muito no contemporâneo cepticismo bíblico o uso desta primeira definição". De fato, há críticos literários da Bíblia que, baseados principalmente no pressuposto de que a Bíblia é uma literatura comum, e não a revelação de Deus, se dedicam a tentar confirmar o seu pressuposto.
A escola de Crítica Literária que se desenvolveu principalmente na Alemanha, no século XIX, e que tem seus continuadores hoje, na Europa e na América, trabalha sob a pressuposição acima mencionada; por isto, tem recebido o nome de Crítica Radical (crítica destrutiva). Seu trabalho tem resultado numa absurda fragmentação de diversos livros da Bíblia, na datação arbitrária desses livros, e na negação da historicidade de seus relatos.
Porém, crítica Literária da Bíblia é idealmente um campo da introdução bíblica. É uma disciplina extremamente valiosa, especialmente para a pregação e ensino das Escrituras Sagradas, pois é ferramenta útil para a sua interpretação. Hoje, especialmente, esta matéria tem importância para a apologética cristã, pois prepara o estudante das Escrituras a enfrentar as questões relativas à credibilidade das Escrituras como Palavra de Deus. Os ataques da Crítica Radical, a princípio danosos à fé cristã; por outro lado, têm também motivado a erudição fiel à Palavra ao estudo das questões levantadas; e respostas muito consistentes têm sido apresentadas.
A Palavra de Deus Como Objeto da Crítica Literária:
A Escritura Sagrada pode e deve ser objeto de uma construtiva Crítica Literária. Um exemplo simples de Crítica Literária da Bíblia, que um leitor atento pode necessitar fazer é encontrar o significado do registro em Romanos 16.22: "Eu, Tércio, que escrevi esta epístola…". Esta passagem não coloca em dúvida a autoria de Paulo, quanto a Carta ao Romanos. Tércio era seu amanuense, isto é, a pessoa que escrevia a carta, enquanto Paulo a ditava. Existem outras questões mais complexas, e de grande importância, como a autoria mosaica do Pentateuco, a antiguidade e historicidade dos evangelhos; ou, as aparentes contradições entre os evangelhos sinóticos.
Devemos enfrentar com sabedoria e prudência as dificuldades que parecem desafiar o conceito de inerrância da Bíblia. Se alguma dúvida é levantada sobre a fidelidade de alguém em quem confiamos, nossa imediata atitude não deve ser de desconfiança e rompimento para com essa pessoa; mas é sensato proceder à verificação dos fatos e aguardar e o resultado final. Muito mais cautelosa será a nossa atitude para com a infalível Palavra de Deus. Por exemplo, se temos algumas questões cronológicas não resolvidas, nossa atitude não deve ser de desconfiança para com as Escrituras. Ao contrário, devemos concluir que nos faltam, agora, dados suficientes.
Se um determinado registro bíblico não possui larga evidência arqueológica como outros registros bíblicos possuem, não temos o direito de tratar aquele com suspeita. Tão pouco, é admissível que um relato bíblico seja rotulado como lendário, simplesmente por se tratar de um milagre. Isto não seria Crítica Literária; mas, uma abordagem preconceituosa da Bíblia.
VIII. O TEXTO DO ANTIGO TESTAMENTO
O Processo de Transmissão e Conservação do Texto
Os livros que constituem as Sagradas Escrituras não teriam sido conservados, se não houvessem sido copiados e recopiados, no curso dos séculos; pois os autógrafos e as suas cópias não podiam durar para sempre.
Porém, o processo de produzir cópias estava sempre sujeito a falhas, que ameaçavam a fiel conservação da Escritura. Contudo, devido a profunda reverência pelos Escritos Sagrados, que eram reconhecidos como a Palavra de Deus, os antigos escribas que copiaram as Escrituras do Antigo Testamento foram muito cuidadosos no trabalho que realizaram.
Mas, isto não foi suficiente para que estes copistas fizessem um trabalho impecável. Eles cometeram erros; porém, estes foram, na maioria das vezes, erros não intencionais, isto é, que não tinham a intenção de corromper o texto.
Entretanto, muitos estudiosos do texto reconhecem que, nos séculos pré-cristãos, houve um certo grau de liberdade na reprodução de cópias, e na produção de traduções (estas não eram estritamente literais).
Os manuscritos mais velhos do Antigo Testamento, que sobreviveram, são posteriores ao Cativeiro Babilônico (586 AC); e a maioria destes manuscritos é pertencente ao período entre 300 AC e 500 DC
Os manuscritos hebraicos do Antigo Testamento mais antigos, isto é, mais próximos dos autógrafos, são em menor número, comparados ao Novo Testamento. Porém, note-se o quanto é grandioso este testemunho manuscritológico:
1. Até 1890 haviam 731 manuscritos conhecidos.
2. Em 1890 Foram encontrados no Cairo cerca de 10.000 manuscritos e fragmentos de manuscritos que datam aproximadamente entre 500 e 800 DC.
3. Em 1947 os famosos manuscritos do Mar Morto foram encontrados. Estes são os mais antigos manuscritos hebraicos do Antigo Testamento, são manuscritos que antecedem a era cristã.
Algumas razões podem ser apresentadas para explicar a sobrevivência de um número relativamente menor, juntamente com uma idade inferior dos manuscritos do AT:
1. A associação dos fatores antiguidade e destrutibilidade dos manuscritos;
2. O Exílio Babilônico e a dominação da Palestina por nações estrangeiras;
3. A regra dos escribas de destruição dos manuscritos envelhecidos, e dos que apresentavam erros (medida que cooperava para a sobrevivência somente dos melhores manuscritos).
A história do Texto do AT está intimamente relacionada a duas importantes ordens de escribas: os Soferim e os Massorestas.
Os Soferim.
Os Soferim, ou ordem de escribas, foram uma ordem iniciada por Esdras, sua atividade se estendeu 400 AC - 200 DC. Estes cuidaram da padronização e preservação do Texto das Escrituras. Suas principais realizações foram:
1. Esta ordem foi a provável responsável por um hipotético trabalho de crítica textual em aproximadamente 100 AC, que revisou e padronizou o Texto do Antigo Testamento, a partir do melhores manuscritos então disponíveis.
2. Criaram o sistema de contagem de versos, palavras e letras em cada livro, para preservar a fidelidade das cópias.
3. Estabeleceram os "decretos escribais", que eram regras para o trabalho dos copistas.
4. Os Soferim também produziram obras que têm valor para a Crítica Textual do Antigo Testamento, em virtude de suas diversas citações do AT. São o Midraxe (buscar, investigar) produzido entre 100 ac e 300 dc (uma exposição doutrinária e homilética do AT); e o Tosefta, que é uma espécie de complemento ao Midraxe.
Os Massoretas
Os Massoretas (transmissores) foram os sucessores dos Soferim como guardiões da Escritura Sagrada. Suas atividades se estenderam desde 500 até 950 DC, aproximadamente. Moisés bem Asher, é um de seus mais importantes representantes, seu trabalho é a base do texto padrão do Antigo Testamento. As mais importantes realizações dos massoretas são:
1. Deram ao texto do AT a sua forma final; por isso o Texto do Antigo Testamento, hoje estabelecido é também chamado Texto Massorético.
2. Vocalizaram e acentuaram o texto, que até então era um texto meramente consonantal.
3. Criaram as chamadas Massoras:
Massora Marginal : informações quanto a incidência de certas palavras e frases em toda a Escritura.
Massora Maior: recursos mnemônicos.
Massora Final: estatísticas quanto ao número de versos, palavras e letras que constavam nos livros, e também a identificação de palavras e letras centrais.
Enfim, os massoretas conservaram com todo o cuidado o patrimônio das Escritura Sagradas, que receberam. É inigualável e admirável o trabalho que fizeram.
IX. FONTES DOCUMENTAIS DO AT
É muito importante ter em mente a diferença entre Crítica Literária e Crítica Textual. Ambas são campos da Introdução Bíblica, porém são matérias totalmente diferentes. A primeira lida com a obra literária, a segunda lida com manuscritos (escritos à mão) e pretende atestar e, ou, restaurar a fidelidade dos manuscritos aos seus autógrafos. Quando estivermos estudando sobre Crítica Literária do AT, ou do NT, também usaremos, com muita freqüência o termo "fonte literária"; porém, esta expressão significa coisa bem diferente de "fonte documental", em Crítica Textual. Mais adiante voltaremos a tratar de "fonte literária". Fontes documentais são especialmente manuscritos sobreviventes.
Os Manuscritos Hebraicos são as primeiras fontes documentais do AT. Há dois grupos de manuscritos hebraicos:
1. Manuscritos Pré-Cristãos. Estes, não nos chegaram em grande número, por tradição regular. Mas especialmente por descoberta arqueológica, e são especialmente os Manuscritos de Qumrã; também conhecidos como Manuscritos do Mar Morto. Estes manuscritos são o que restou da biblioteca de uma comunidade de Essênios (seita judaica); e eles podem ser datados por volta do primeiro século, até começos do terceiro século AC.
2. Manuscritos Pós-Cristãos. Estes manuscritos, conforme o que já foi visto, são a herança direta do trabalho dos Massoretas; e se constituem na base do contemporâneo Texto Bíblico do Antigo Testamento; que, por isso mesmo, é também chamado de Texto Massorético. O Pentateuco Samaritano é outra fonte documental classificada entre os manuscritos pós-cristãos. É a "Bíblia" da seita dos Samaritanos, que se resume ao Pentateuco. Os exemplares sobreviventes datam do X século dc em diante.
As Versões do Antigo Testamento são outras importantes importantes fontes documentais do AT:
1. Versões Gregas:
A Septuaginta. É a importante versão do Antigo Testamento para o grego. Sua origem está envolta em muitos mistérios, contudo sabe-se que foi produzida entre os séculos II e III AC, em Alexandria. Seus exemplares mais antigos datam do II século AC até ao IV século DC.
Versões Gregas Posteriores. São as versões de Àquila (130 DC), Símaco (170 DC) e de Teodósio (18-190 DC).
Targuns Aramaicos. Eram traduções (parafrases) aramaicas da Bíblia com comentários.
Versões Latinas. A Vulgata é a mais conhecida de todas. Esta tradução foi feita por Jerônimo no final do IV século DC. Antes da Vulgata já existia outra tradução latina, a chamada Antiga Latina, originária do II século DC.
Versões Siríacas. A mais conhecida é a chamada pelo nome Peshita, que apareceu por volta do final do terceiro século DC.
Outras Versões. A Gótica de Úlfilas (III século DC), o missionário e criador do alfabeto Gótico; a Coptica, Etiópica e a Armênia.
As Poliglotas. Eram edições já impressas das Escrituras Sagradas, em que o texto na língua original era apresentado, seguido de outras versões, e dispostos em colunas (Complutense, da Antuérpia, de Paris e de Londres.
O estudo de todo este material, comparado especialmente com os manuscritos de Qumrã, sugere que há, provavelmente, quatro famílias de manuscritos Hebraicos:
Proto-massorética (ancestral do Texto Massorético)
Proto-septuaginta (ancestral da Septuaginta)
Proto-samaritana (ancestral do Pentateuco Samaritano)
Neutra (apresenta características comuns as três tendências anteriores)
X. A CONFIABILIDADE DO TEXTO DO ANTIGO TESTAMENTO
Eu não sei quando você ficou sabendo que não sobreviveram até aos nossos dias, os autógrafos da Bíblia. Muitos somente tomam conhecimento deste fato quando chegam ao seminário. Mas, esperamos que o estudo desta matéria esteja cooperando para o reconhecimento do inegável fato de que temos um Texto do AT fiel aos seus autógrafos.
Comparado ao Novo Testamento, o Antigo Testamento possui um menor número de manuscritos antigos. Mas, é importante salientar que uma das causas do menor número de antigos manuscritos está relacionado ao trabalho de Crítica Textual que os Massoretas já faziam, e de sua prática de destruir os manuscritos danificados pelo uso, assim como os que apresentavam falhas. Vimos que o estado atual do Texto do AT se deve especialmente ao cuidadoso trabalho dos Massoretas. Evidências da Fidelidade do Texto do AT.
Os Manuscritos de Qumrã do AT, foram encontrados em 1947, portanto muitos séculos depois do estabelecimento do Texto Massorético. Porém, estes manuscritos antecedem, e muito, o estabelecimento final do Texto Massorético. Consequen-temente, eles podem, e de fato, atestam a fidelidade do Texto Massorético.
O Testemunho de Jesus e dos apóstolos, não têm valor somente para o Estudo do Cânon, e para a Literatura do AT; mas, também para a Confirmação do Texto Massorético, pois suas citações, que também antecedem o estabelecimento final do Texto Massorético são idênticas a este.
A Septuaginta, é do III, ou do II século ac, também atesta a fidelidade do Texto Massorético, pela grande proximidade que há entre eles. A arqueologia, também não é importante somente para a Literatura Bíblica; ela também confirma a fidelidade do Texto do Antigo Testamento. Até onde tem sido possível à própria arqueologia, ela também tem a atestado a fidelidade textual do AT através de fatos históricos, gerográficos e materiais.
A qualidade interna do Texto Massorético, enfim, testemunha em favor de sua fidelidade aos inspirados, e, conseqüentemente, inerrantes autógrafos:
1. Poucas variantes (leituras divergentes).
2. Acordo entre as passagens paralelas; que ocorrem, por exemplo, entre os livros dos Reis e das Crônicas.
Em Sua providência, Deus não impediu que os copistas das Santas Escrituras cometessem erros. Porém, Deus providenciou copistas fiéis. Deus providenciou que muitas cópias fossem preservadas, para serem comparadas, e para que o Texto seja preservado e restaurado, quando necessário. Deus também providenciou que outras cópias permanecessem escondidas por séculos, para que quando encontradas, atestassem o quanto foi bem sucedido o trabalho de preservação do Texto, presidido por Sua providência.
É indispensável reconhecer que Crítica Textual do AT não nos apresenta um novo Texto do AT. Ao contrário, ela testemunha enfaticamente em favor da fidelidade do processo de conservação e transmissão do Texto do AT.
Concluiremos este assunto com a seguinte citação: Em nenhum ponto os ensinos básicos do Antigo Testamento estão em jogo. Leitores dos vários textos hebraicos e das traduções antigas ouviram a palavra de Deus e com ela interagiram, exatamente como fazemos hoje com nossas traduções. Há dúvidas quanto ao significado preciso de algumas palavras (algumas centenas de palavras hebraicas são difíceis de definir com segurança porque ocorrem apenas uma vez ou duas na Bíblia), e a forma exata no texto hebraico é questionável em muitas passagens. Entretanto, estudiosos da Bíblia são capazes de reconstruir o significado provável na esmagadora maioria das passagens difíceis, e a mensagem de praticamente todas as seções do Antigo Testamento é clara. Pode-se confiar no Antigo Testamento que Deus julgou apropriado preservar como sua palavra em todas as suas verdades e em sua autenticidade.
XI. O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO
O Cânon Como Propósito Divino
A escrituração da revelação especial (redentiva) indica outros propósitos divinos quanto a Escritura:
1. Esta forma escrita se tornaria o meio regular de acesso a revelação especial;
2. A necessidade de preservar esta revelação escrita;
3. A necessidade de distinguir os escritos que constituem esta revelação, ou seja, necessidade de definir um Cânon.
O Processo Histórico de desenvolvimento do Cânon
É possível, através das próprias Escrituras do Antigo Testamento, identificar de modo resumido, alguns aspectos principais do processo de desenvolvimento do Cânon do AT.
Gradualmente, à medida em que eram compostos e publicados, os livros inspirados tinham a sua canonicidade reconhecida; e assim, eram conservados no Tabernácu1o, e, posteriormente, no templo (Dt 31.24,26, Js 24.26; 1 Sm 10.25; 2 Re 22.8; Jr 36.32).
Devido ao Cativeiro Babilônico, este acervo foi espalhado para as regiões por onde os judeus foram dispersos; e, então, recopiado; Dn 9.1-2.
A tradição judaica atribui a Esdras um importante papel na iniciativa de reunir os livros canônicos do AT. Com o fim do Cativeiro Babilônico, Esdras reuniu cópias do AT, e as colocou no novo Templo. Ao mesmo tempo, novas cópias foram feitas e enviadas às sinagogas (Ed 7.5-10; Ne 8).
Josefo, no I século dc dá testemunho deste cânon como conhecido desde o período de Esdras.[1]
O Cânon em Três Antigas Coleções
Na Biblia Hebraica:
1. Lei (Torá): os 5 livros do Pentateuco.
2. Profetas (Nebhiim):
a) Anteriores: Js, Jz, I e II Sm, I e II Re.
b) Posteriores: Is, Jr, Ez.
c) Menores: conforme os conhecemos.
3. Escritos (Kethubhim):
a) Hagiógrafa (poesia e Sabedoria): SI, Pv, Jo, Ct, Rute, Lm, Ec Et.
b) História: Dn, Ed, Ne, I e II Cr.
Na Septuaginta (III – II século ac):
1.
Lei
2. Históricos: conforme os conhecemos, mais 3 apócrifos (I Esdras, Tobias e Judite ).
3. Poéticos e de Sabedoria: conforme os conhecemos, mais 2 apócrifos (Sabedoria de Salomão e Eclesiástico ).
4. Profetas menores: conforme conhecemos mais o apócrifo Baruque.
5. Profetas maiores: conforme conhecemos, mais 5 apócrifos (História de Suzana, Bel e o Dragão, Cântico dos Três Moços, 1 e 2 Macabeus).
Na Vulgata (IV dc): É semelhante à septuaginta; contudo, acrescenta mais 3 apócrifos: II Esdras, Oração de Manassés, e alguns acréscimos a Ester.
Os Apócrifos
A palavra apócrifo significa originalmente: de difícil entendimento. Mas, desde o III século tem designado os livros não canônicos do AT, que foram mencionados acima.
A presença dos livros apócrifos na Septuaginta não significa que seus tradutores e leitores os considerassem canônicos. No máximo, indica que eram considerados livros de valor histórico e religioso. Além disso, somente manuscritos do IV e V século dc apresentam variadamente alguns apócrifos.
O testemunho de Josefo (historiador) e de Filo (filósofo), ambos judeus do I século dc, confirmam que os judeus jamais reconheceram a canonicidade dos apócrifos
Os livros apócrifos foram escritos num período de silêncio profético, isto é entre a conclusão do Cânon do Antigo Testamento e do Cânon do Novo Testamento.
Como ja foi referido, o NT tem aproximadamente 300 citações do AT. Contudo, somente faz uma citação de uma obra desconhecida (Palavras de Enoque), e não cita os livros apócrifos. Considerando-se que muitas citações do AT foram feitas a partir da Septuaginta, é admirável o fato de que não possua sequer uma citação dos apócrifos.
XII. O CÂNON DO AT (cont.)
Os Antilegomena e os Homolegoumena
São os livros que suscitaram dúvidas quanto a sua canonicidade; contudo, foram reconhecidos.
1. Cantares: Pela forma íntima como trata da relação conjugal.
2. Eclesiastes: Por seu alegado pessimismo e epicurismo, e por sua aparente negação da vida além da morte.
3. Ester: Pela inexistência de uma alusão direta a Deus.
4. Provérbios: Pela existência de preceitos aparentemente inconsistentes.
5. Ezequiel: Por causa das diferenças entre o "seu" templo e o tabernáculo; bem como o templo "de Salomão".
Os outros trinta e quatro livros que que constituem o Cânon, porque não foram objeto de qualquer questionamento quanto a canonicidade, são chamados de homolegoumena.
Os Pseudoepígrafos
São livros judaicos escritos entre o II século ac e o II século dc. Sua característica predominante é o estilo apocalíptico. Em geral se desenvolvem a partir de algum assunto dos livros canônicos do AT. Além disso, reivindicam a autoria de algum dos autores dos livros canônicos.
Alguns exemplos de pseudoepígrafo são: O Martírio de Isaías, Assunção de Moisés, 3 e 4 Macabeus.
O Cânon do Antigo Testamento Hoje
O Cânon do Catolicismo Romano conserva os apócrifos introduzidos nas edições mais recentes da Septuaginta e da Vulgata.
O Cânon do Protestantismo é rigorosamente o mesmo da Bíblia Hebraica. O motivo pelo qual Cânon "protestante" consta de 39 livros, enquanto a Bíblia Hebraica só contém 24; é que esta tem, agrupados, em um só volume, alguns livros:
1. os dois de Samuel,
2. os dois de Reis,
3. os dois de Crônicas,
4. Esdras com Neemias constituem um único livro
5. Tambem todos os profetas menores foram agrupados para formar um único livro.
O motivo pelo qual Josefo refere-se ao cânon do AT como possuidor de 22 livros é a inclusão de Rute em Juizes, e de Lamentações em Jeremias.
O Critério da Canonicidade
O verdadeiro critério da canonicidade é apresentado pela própria Escritura Sagrada. Canônica é a Palavra de Deus, aquilo que Deus falou, o que Deus revelou, principalmente através de homens que Deus mesmo enviou, e que são chamados de profetas. Pedro escreveu que estes homens "falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (2 Pe 1.21). Paulo escreveu que "Toda a Escritura é inspirada por Deus" (2 Tm 3.16). Portanto, o critério da canonicidade é que a Escritura é a Palavra de Deus, ou seja, a Palavra (escrita) inspirada por Deus. Como já foi referido na parte introdutória a este curso, a Igreja tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento, não definiu o Cânon; mas, tão somente, o identificou, presidida pela providência divina. Quem determinou o Cânon foi Deus, mediante a inspiração dos livros sagrados.
Testemunho Bíblico Relativo ao Cânon do AT
1. A Lei é reconhecida no restante do AT como sendo canônica; Js 1.7-8; 1 Re 2.3; 2 Re 14.6.
2. Todo o AT é chamado de "Escrituras", e também "Palavra de Deus" no NT; que lhe faz, como já foi referido, aproximadamente 300 citações, e lhe atribui procedência e autoridade divinas.
3. O testemunho de Jesus Cristo, embora faça parte do item anterior deve ser destacado. Ele reafirmou a canonicidade do AT em diversas ocasiões: (Mt 5.17-19; Jo 5.39)
Evidências da Canonicidade
1. A sua unidade: unidade interna, e com o Novo Testamento.
2. A exatidão de seus registros, tanto quanto podem realmente ser verificados.
3. A exatidão de seus vaticínios já cumpridos.
4. A superioridade do seu conteúdo, comparado aos oráculos das religiões em geral.
5. O seu efeito na vida de pessoas individualmente, e na sociedade.